Neste espaço são publicados informes e sugestões para aprimorar a Qualidade de Conteúdo do UOL. É um espaço aberto para a Redação do UOL. Participe!
Craig Silverman é um jornalista canadense free-lancer que em 2004 criou o site Regret the Error, dedicado aos erros e às correções publicadas – ou não – na imprensa de língua inglesa. Em entrevista ao jornalista Chip Scanlan, publicada no site Poynter Online em 12 de dezembro de 2007, Silverman descreve o mundo das (in)correções jornalísticas e expõe suas percepções sobre os tipos de erros mais comuns e como evitá-los e corrigi-los.
Três pontos se destacam na entrevista de Silverman:
• Pesquisas mostram que entre 40% e 60% das notícias publicadas em jornais têm algum tipo de erro;
• Levantamento feito pela ASNE (American Society of Newspaper Editors) mostra que mais de 60% dos leitores de jornais dizem se sentir melhor quando vêem correções;
• Os erros mais comuns são os de ortografia, de digitação, de cálculo, apresentação de números errados, citações incorretas e erros de identificação.
A seguir, uma tradução de parte da entrevista:
Chip Scanlan: Qual a dimensão do problema das incorreções na imprensa?
Craig Silverman: Há várias pesquisas acadêmicas que procuram descobrir a situação e o “nível” dos erros em jornais norte-americanos. Essas investigações começaram em 1936 e continuam até hoje, com pesquisadores como Scott Maier e Philip Meyer, que fazem boa parte do levantamento. De maneira geral, as pesquisas sugerem que entre 40% e 60% das notícias publicadas em jornais têm algum tipo de erro, seja factual ou algo de natureza mais subjetiva. Mas a equação tem também um outro lado: uma pesquisa de Maier publicada este ano descobriu que apenas 2% dos erros factuais são corrigidos. Ficamos, então, com um índice de erros relativamente alto, acompanhado por um índice de correção muito pequeno. Os erros não estão sendo evitados nem corrigidos.
Num ambiente de mídia em que notícias são publicadas em papel e no meio online, e reunidas em vários bancos de dados, a questão dos erros não corrigidos se torna ainda mais urgente. Os erros de hoje se tornam os erros de amanhã - quando são, por exemplo, acessados na internet ou em um banco de dados. Criamos um histórico de erros e, ao mesmo tempo, “poluímos” o meio com esses erros, que podem ser postados em um blog, citados em uma pesquisa, usados em press releases... Eles vão longe, mais rápido do que nunca. Em alguns casos, eles podem existir para sempre. Então, temos a responsabilidade de fazer tudo que pudermos para evitá-los e corrigi-los. Faz parte do nosso trabalho de jornalistas. As notícias não acabam quando são publicadas; somos responsáveis também por corrigi-las e atualizá-las.
O outro lado da questão é, claro, o efeito dos erros na percepção que o público tem da imprensa. Em outras palavras, erros derrubam a credibilidade. O público percebe os erros e nota quando eles não são corrigidos. Um levantamento feito pela ASNE [American Society of Newspaper Editors] com leitores de jornais aponta que mais de 60% deles dizem se sentir melhor quando vêem correções. Os leitores não esperam perfeição. O que eles esperam é que a gente trabalhe para prevenir e corrigir os erros. Quando não fazemos isso, eles nos punem – deixam de comprar o jornal ou acessar o site, por exemplo.
(...)
Scanlan: Quais são os erros mais comuns?
Silverman: Erros de ortografia em nomes e títulos, erros de digitação, erros de cálculo, números incorretos, citações erradas e erros de identificação. A grande maioria dos erros factuais é acidental. Nós conhecemos ou podemos obter com facilidade a informação correta, mas alguma coisa se desvia em algum ponto da reportagem, da redação, da edição, do processo de produção.
Scanlan: Que categorias de erros você tem identificado?
Silverman: A maioria dos erros pertence a duas categorias, como definidas por Donald Norman no “The Design of Everyday Today”: deslizes (slips) e equívocos (mistakes). Deslizes são o que eu descrevi anteriormente: erros que ocorrem mesmo quando temos conhecimento ou acesso à informação correta. Equívocos são o resultado de uma decisão consciente. Foi um equívoco o The Chicago Daily Tribune declarar que Dewey fora o vencedor das eleições presidenciais em 1948 (“Deweys Defeats Truman”). [na Wikipedia há um verbete dedicado ao episódio]. Uma boa notícia: deslizes são altamente evitáveis.
Scanlan: Como as organizações de notícias podem “controlar” esse problema?
Silverman: Eu queria poder dizer que há uma máquina mágica de precisão que poderia ser instalada em qualquer redação, mas a questão não é tão simples.
A primeira coisa a ser feita é criar uma cultura organizacional que dê valor à prevenção de erros e aceite que a correção faz parte do jornalismo. Libertar-se do estigma que leva alguém a querer esconder seu erro e não aprender com ele. Para implantar uma nova cultura são necessários treinamento, tecnologia eficaz e bons processos.
Tudo isso começa com uma atitude de paixão pela precisão e de reconhecimento da importância da correção. Não tenho dúvida de que dentro da maioria das redações há pessoas que têm seus próprios modos de checagem e verificação. Procure um modo para captar e compartilhar essa informação, e você está no caminho certo.
Scanlan: Como os repórteres podem evitar erros em suas matérias?
Silverman: Acho que uma das coisas mais fáceis é usar um checklist. Eu sei que muitas pessoas acham isso chato, mas é preciso lembrar que pilotos de avião usam checklists. Esse método pode funcionar bem. Crie uma lista dos elementos mais comuns em uma notícia (nomes, títulos, números, datas, etc.) e adicione também alguns itens com os quais você costuma ter problemas. Você sempre erra a grafia de uma palavra? Coloque-a no checklist e verifique antes de terminar qualquer matéria. E deixe um espaço para itens específicos de cada notícia.
Lembre-se também que a memória não é confiável. Se as coisas não estão anotadas ou em algum lugar, gaste um tempinho telefonando ou mandando um e-mail. Alguns minutos extras no telefone podem fazer a diferença entre uma notícia “limpa” e uma com erros.
Quando tiver dúvida, telefone. E quando achar que tudo está ok, dê uma olhada no checklist.
Scanlan: Você tem feito alguns treinamentos em redações. Como você tenta ajudar as pessoas com o problema do erro?
Silverman: Eu estou apenas começando a trabalhar com treinamento. Então, acho que estou aprendendo mais do que estou ensinando, o que não é uma coisa ruim. No momento estou tentando levar para as redações informações sobre erros e índices de correção, e explicar as principais questões em torno do erro: questões culturais, processuais, tecnológicas, humanas. Espero mudar a cultura das organizações e ajudá-las a aceitar a realidade do erro e a ética da correção. Eu também tento inspirá-las a inovar em relação à prevenção e à correção. Eu mostro algumas das coisas que as organizações já estão fazendo. Então, nesse aspecto, é um trabalho mais educativo. Espero adicionar outros elementos durante os treinamentos.
Scanlan: Se você pudesse mudar alguma coisa na relação das organizações de notícias com os erros, o que você mudaria?
Silverman: A questão do estigma em torno do erro, pois tendemos a pensar que só os maus repórteres e maus editores erram. Além disso, como não coletamos dados e não compartilhamos conhecimento sobre isso, não estamos aprendendo com nossos erros. Por fim, precisamos ser inovadores em relação à correção de erros.
(...)
Scanlan: Como os jornais lidam com as correções? E a TV e o rádio? E os websites?
Silverman: Há bons exemplos, mas na maior parte das vezes as correções são ignoradas ou esquecidas. Elas são uma parte essencial do nosso contrato com o público - nos comprometemos a corrigir nossos erros publicamente – mas ainda há uma falta de compromisso com as correções.
É preciso criar uma cultura em que repórteres e editores sejam encorajados a admitir seus próprios erros e incorporar a idéia da correção. Isso significa criar meios para que o público indique erros e agradecer quando ele faz isso. Significa apresentar as correções em linguagem clara e de forma visível. Uma correção vaga ou escondida é um ato vazio que só serve para “isentar” a empresa jornalística de sua culpa, em lugar de corrigir e informar o público.
Os jornais são mais confiáveis em relação às correções. Mas isso varia de uma publicação para outra. Alguns jornais são sérios quanto à exposição de erros online, enquanto outros não ligam para isso. Alguns têm ferramentas para que o público reporte um erro. Outros dificultam tanto que o leitor tem que procurar muito para encontrar um meio para comunicar um erro.
As redes de televisão raramente mostram correções no ar. Algumas colocam os erros na internet. Mas como ficam as pessoas que não visitam o website? O mesmo acontece com o rádio.
O ambiente online é o melhor para se lidar com as correções, e há algumas grandes inovações aparecendo. Por exemplo, a Slate Magazine não apenas criou em seu site um lugar para correções dentro dos artigos, como coloca também um asterisco no final do parágrafo em que o erro ocorreu. Os leitores podem clicar no asterisco, e um hiperlink os leva diretamente para a correção no fim do artigo. Os leitores sabem exatamente onde o erro aconteceu. Ou seja, a correção oferece o contexto, e isso é ótimo. Eles também têm um RSS e uma página de correções e, no final da semana, colocam todas as correções na homepage.
Mas a grande mudança que precisa acontecer no mundo online é, mais do que fazer com que os leitores procurem pelas correções, levá-las até eles. Oferecer um RSS. Permitir que os leitores, assim que entrem nos seus emails, recebam um alerta caso um artigo acessado ou recebido por eles tenha sido corrigido. Adicionar um “corrigido” na home que lista as notícias “mais lidas” e “mais postadas”. Isso ajudaria as pessoas a ver se a notícia que elas leram ontem foi corrigida hoje. Podemos descobrir um modo de alertar automaticamente alguém que postou uma notícia que foi posteriormente corrigida? Podemos criar um modo de os membros de um website ganharem algum tipo de benefício por reportar um erro factual?
Estou animado com o que podemos fazer no campo das correções. Há várias possibilidades.
Scanlan: O que você descobriu sobre como e por que erros são publicados?
Silverman: Há duas coisas essenciais que os jornalistas devem saber sobre erros:
1. Todos, independentemente do seu grau de treinamento ou experiência, podem cometer erros. Ariel Harg, um “checador” do Columbia Journalism Review, escreveu: “O artigo com mais erros que eu já chequei foi escrito por um ganhador do prêmio Putlizer”. Todos erram. Aceite isso e entenda que:
2. Erros têm uma origem. Eles não devem ser explicados com desculpas vagas do tipo “eu estava desatento” ou “eu me perdi”. Eles ocorrem por uma série de circunstâncias, e essas mesmas circunstâncias podem produzir mais e mais erros. Temos que olhar para os erros e examinar como as pessoas, as tecnologias, os processos e as fontes provocam esses erros. Corretores ortográficos causam erros, a maneira como nosso cérebro processa a linguagem causa erros... Se você passa uma notícia de um editor para outro, isso pode resultar em um erro.
Se tomarmos um tempo para examinar exatamente por que os erros ocorrem, podemos começar a evitá-los. Em meu livro, conto a história de um militar americano na Segunda Guerra Mundial que notou um crescimento no número de erros cometidos por pilotos, que causavam acidentes. Mas em vez de simplesmente aceitar que alguns pilotos eram melhores que outros, ele tentou descobrir as verdadeiras causas disso. Depois de interrogar os pilotos e examinar como eles trabalhavam dentro e fora do cockpit, o militar descobriu que a maneira como alguns painéis de controle eram desenhados e posicionados levava os pilotos a cometerem erros. O resultado? Uma redução no número de erros cometidos por pilotos.
Temos muito a aprender sobre as causas dos erros na imprensa. Uma mudança na forma como percebemos e analisamos esses erros poderia nos revelar muita coisa e nos colocar no rumo certo.
Scanlan: O que uma organização de notícias deve fazer ao descobrir um erro?
Silverman: Corrigir de uma maneira eficaz e armazenar o erro em um banco de dados, informando onde ele aconteceu, como aconteceu e quem o descobriu. Então, usar os dados como base para um programa de prevenção. E se o leitor ou uma pessoa de fora informar a ocorrência de um erro, é preciso agradecer pelo tempo e esforço. Eu também defendo a prática de se entrar em contato com a “vítima” do erro (pode ser uma pessoa ou uma organização), para se desculpar e informar que foi feita uma correção.
Tradução: Ananias Oliveira e Flávia Siqueira
Em inglês, no Poynter Online: We Stand Corrected: When Good Journalists Make Stupid Mistakes
Mara Gama às 16h44